sem conclusão
infinito e eternidade não são a mesma coisa.
recorri à etimologia e descobri, infinito é sem fim, aquilo que não tem limite ou bordas, eternidade é o que atravessa eras, aquilo que perdura no tempo.
tensionando filosoficamente é possível dizer que o infinito cobre uma ideia espacial, e eternidade uma ideia temporal. o primeiro dissolve a forma, o outro não acaba.
mas ainda assim, parecem a mesma coisa.
se não acaba, então continua... não tem limite.
se não tem limites, então continua... não acaba.
hoje é um dia como qualquer outro.
pulsa o milagre da existência e é indizível.
um oceano de possibilidades,
mais vasto que todos os símbolos que inventamos.
como essa fronteira imaginária entre o hoje e amanhã que constrói um presente sempre minúsculo - espremido entre ideias que separam o tempo em antes e depois, e por isso se perde da infinitude da própria continuidade, do próprio fluxo.
como a fronteira entre territórios que nos separa enquanto gente, mesmo que tenhamos todos a mesma origem e o mesmo destino. assim como passado, presente, futuro.
tudo uma coisa só.
quanta confusão criamos sobre algo simples, porque racionalizamos.
porque tentamos racionalizar tanto: estamos divididos.
na aritmética dual que impede a coexistência dos paradoxos e torna tudo binário - e entediante.
e por isso, esperamos a palavra certa, que é sempre essa, e esperamos o tempo certo, que é sempre agora.
na contramão do tempo natural, separamos matéria e espiritualidade, tempo e consciência.
dissecamos órgãos, os colocamos em ordem alfabética, de tamanho, de função, nomeamos cada sistema para entender - e é também necessário! mas de tanto olhar as partes fragmentadas, criamos tantas definições, que por si só já são limitadas, que esquecemos que é o sistema inteiro que faz a vida funcionar plenamente.
que tudo se relaciona.
que só estudamos o órgão, porque existe um corpo inteiro.
que só estudamos o tempo, porque existe a consciência.
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infinito e eternidade são a mesma coisa.
recorri à intuição e descobri, foda-se o dicionário. o que eu sinto sobre essas palavras é tão semelhante, que mesmo que eu queira explicar de outra forma, mesmo que eu queira separá-las, elas voltarão a se misturar. eu me misturei com essas palavras incontáveis vezes ao longo da vida. elas estão vestidas de significados que tiveram pra mim.
nunca em entendimento completo. a gente não consegue entender totalmente aquilo que não passa pelo corpo.
a eternidade não pode ser experimentada pelo corpo que racionaliza.
ela não é mensurável. não é lógica. não se pode explicar. não se pode entender.
o ponto mais próximo que cheguei de sentir seu campo foi em total entrega ao presente.
onde as barreiras do passado e do futuro se dissolvem, e só sobra o eterno agora.
isso se faz naquele milésimo de segundo, no intervalo entre um pensamento e outro.
lembrei do krishnamurti dizendo que passado e futuro são subprodutos da mente.
quando a mente abre espaço, por um micromilésimo de segundo que seja, o infinito pode ser visto, como o céu azul - espaço afora indefinidamente, que se abre por detrás de milhares de nuvens feitas de tanto pensar.
a maria me mandou um texto, olha esse pedaço:
"Os objetos da alma são sucessivos, agora Sócrates e depois um cavalo — leio no quinto livro das Enéadas —, sempre uma coisa isolada que se concebe e milhares que se perdem; mas a Inteligência Divina abarca todas as coisas conjuntamente. O passado está em seu presente, bem como o futuro. Nada transcorre neste mundo, no qual persistem todas as coisas, quietas na felicidade de sua condição.”
o que é o tempo, para cada um, se não aonde escolhemos colocar nossa atenção?
cientes que que ao escolher um foco, deixamos de ver tudo que há, mas esse tudo continua existindo, simultaneamente. parece óbvio, mas pense emocionalmente. no momento em que você, mesmo com raiva, escolhe agir de forma equilibrada, a raiva continua existindo, mas ela não está no foco da experiência. você pode mudar o tempo, quando muda o lugar que as emoções ocupam dentro de você.
o tempo É a consciência em ação.
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tentamos enquadrar o tempo de muitas formas.
é muitíssimo interessante dizer que nas minhas pesquisas sobre esse tema, me deparei com o fato de que em muitas civilizações, principalmente africanas e orientais, a ideia de futuro é projetada para parte de trás do corpo e não da frente, como costumamos fazer.
ainda é a lógica do pensamento linear operando, mesmo que ao contrário.
essa inversão, de forma isolada, é capaz de criar que tipo de alteração na percepção do tempo?
o passado está na frente, porque já foi visto.
o futuro atrás, porque ainda não se conhece.
ao mesmo tempo que não sou eu indo em direção ao futuro, é simplesmente o tempo me atravessando.
o tempo como entidade que acontece.
o tempo como processo.
o tempo como um filme em que, pela lógica linear assistimos em sequência, mesmo que o filme inteiro já exista.
o que divide passado presente e futuro é a capacidade de focar?
se vivemos no presente pensando no passado, em que tempo estamos?
"Nada transcorre nesse mundo." - nada se perde.
"No qual persistem todas as coisas." - no eterno agora.
"Quietas na felicidade da sua condição." - não há nada que precise feito, nada a ser salvo. as coisas não querem acontecer ou passar. elas só são.
a convicção do tempo infinito nos permite a não-ação porque integrando passado presente e futuro não há mais pressa. e quando a pressa abre espaço, começamos a perceber o tempo. não o tempo mecânico, o calendário de contas que organiza as burocracias humanas.
o tempo natural, cíclico.
o tempo que não se conclui
sem conclusão
